19 de junho de 2018 - 20:17

Mundo

12/06/2018 08:29

Kim e Trump assinam acordo que prevê desnuclearização da península Coreana

Estelita Hass Carazzai
WASHINGTON/ folhaSP

Em condições ainda vagas e com compromissos que ficaram de fora do papel, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, assinaram nesta terça-feira (12) em Singapura um acordo que prevê a desnuclearização da península Coreana, no qual os dois países se comprometem à “paz e prosperidade” na região.

Em troca do compromisso de desnuclearização, os EUA se comprometeram a interromper os exercícios militares aéreos conjuntos com a Coreia do Sul na península, que desagradaram o norte-coreano durante as negociações para a cúpula desta terça e quase ruíram o encontro. As tropas americanas, porém, vão continuar em solo sul-coreano.

O documento marca uma aproximação histórica, masrepete o compromisso de dar fim às armas nucleares feito pelo norte-coreano no final de abril, em uma reunião com a Coreia do Sul, e não estabelece, por ora, passos concretos rumo à desnuclearização.
Um dos principais itens do combinado entre Kim e Trump, a destruição de um local de testes de mísseis nucleares, foi obtido após a assinatura final, segundo o americano –e ficou de fora do documento divulgado pelos dois países.

As sanções econômicas contra a Coreia do Norte permanecem inalteradas, até que sejam tomados passos concretos rumo à desnuclearização, de acordo com o americano. E o esperado término oficial da Guerra da Coreia (1950-53), que divide a península Coreana há quase 70 anos, não foi anunciado desta vez.

Antes de assinar e divulgar o documento, os dois líderes almoçaram juntos e tiveram um encontro tête-à-tête de quase 40 minutos. Para Trump, a reunião foi “melhor do que todos poderiam esperar”. Já o líder norte-coreano, que horas antes se referira ao encontro como algo que parecia “um filme de ficção científica”, afirmou que “o mundo verá uma grande mudança”.

É a primeira vez que um mandatário dos EUA se reúne com um líder da Coreia do Norte. Em 2009, Bill Clinton, então já fora da Casa Branca, encontrou-se com Kim Jong-il (pai de Jong-un), à época nº 1 do regime. Quinze anos antes, em 1994, Jimmy Carter, também já longe da Presidência americana, reunira-se com Kim Il-sung, avô do atual líder.

Trump afirmou que o momento era “histórico” e que inaugura “um novo capítulo na história nas nações”, mas reconheceu que é o início de um processo e disse que “não há como garantir tudo”.
“Eu apenas sinto, muito fortemente, que eles querem fazer um acordo”, declarou o presidente, durante uma longa entrevista à imprensa em Singapura. “É isso que eu faço. Minha vida toda foi de negociação. Isso é o meu negócio.”

Trump deu ainda declarações críticas aos exercícios militares realizados por EUA e Coreia do Sul na península Coreana.

“Em primeiro lugar, é tremendamente caro. E segundo, é uma situação muito provocadora”, afirmou o presidente americano. “Diante das circunstâncias de que estamos negociando um acordo bastante abrangente, [abandonar os exercícios militares] é algo que eles [Coreia do Norte] apreciaram bastante.”

Kim, por outro lado, afirmou que irá repatriar os restos mortais de soldados desaparecidos ou feitos prisioneiros durante a Guerra da Coreia.
Ao ser perguntado se havia interpelado o ditador, que sufoca a oposição ao regime e detém centenas de presos políticos em campos forçados, Trump disse que falou, sim, do assunto –mas de forma “muito breve” em comparação ao tema das armas nucleares, principal foco do encontro.

Ele lembrou do estudante americano Otto Warmbier, que morreu aos 22 anos dias após retornar aos EUA vindo da Coreia do Norte, onde ficou preso depois de ser condenado a 15 anos de prisão por tentar roubar um item com slogan de propaganda do seu hotel.

"Sem Otto, isso não teria acontecido", disse Trump. "Algo aconteceu a partir daquele dia. Foi uma coisa terrível, foi brutal, mas muitas pessoas começaram a se concentrar no que estava acontecendo, incluindo a Coreia do Norte", acrescentou. "Eu realmente acho que Otto é alguém que não morreu em vão."

Em um clima ineditamente amistoso com a imprensa no local, Trump não quis responder, porém, a um jornalista que o questionou, de forma incisiva, se o encontro dava legitimidade a um regime ditatorial que oprime e retira direitos da população. “Eu acabei de responder”, desconversou o americano.

Essa é uma das grandes preocupações de analistas sobre o encontro: que ele dê legitimidade, além de servir de propaganda, ao regime ditatorial do norte-coreano.

O icônico aperto de mão de Trump e Kim foi firmado em frente às bandeiras enfileiradas dos dois países. Os dois posaram para fotos, e demonstraram cordialidade —algo até poucos meses impensável, diante das ofensas que trocaram no passado (que foram de “fogo e fúria” a “o meu botão é mais poderoso que o seu”).

Nesta terça, o americano afirmou que Kim tem uma “grande personalidade” e é “muito inteligente”, segundo declarou à CNN. "Eu não estou dizendo que ele seja bom."

Questionado se colocava o ditador numa posição de igual, Trump disse que não via o encontro dessa forma. “Eu farei o que for preciso para tornar o mundo um lugar melhor”, afirmou. “Se eu posso salvar milhões de vidas vindo até aqui e estabelecendo um relacionamento com alguém, que é um homem muito poderoso, é minha honra fazê-lo.”
Ainda não se sabe quanto tempo levará a desnuclearização prometida por Kim.

Em entrevista à rede Fox News após o encontro com Kim, Trump afirmou acreditar que o norte-coreano irá "iniciar imediatamente" a desnuclearização do país.

"Eu apenas ​acho que vamos começar agora o processo de desnuclearização da Coreia do Norte. Acredito que ele [Kim] vai voltar [à Coreia do Norte] e vai começar o processo imediatamente. E ele já indicou isso", falou o americano. "É um processo e está realmente indo rápido."

Trump reconheceu que é preciso um grande esforço para desmobilizar um arsenal como o norte-coreano, e que há impeditivos “científicos e mecânicos” para que isso seja feito de forma rápida.

Os EUA farão verificações do compromisso da desnuclearização in loco, com uma equipe de observadores americanos e internacionais.
Uma próxima reunião entre as delegações dos dois países será agendada na semana que vem. Na ocasião, serão estabelecidos os passos concretos para o compromisso atingido nesta terça.
Trump não descartou a possibilidade de viajar a Pyongyang em breve —tampouco a de convidar Kim para uma visita à Casa Branca.

 
 
 

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